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segunda-feira, 22 de outubro de 2012
Deixa ela entrar
Sonhos, mágoas, paixões e esperança. Era apenas isso que ela tinha naquela mala, além de algumas roupas um pouco gastas e das sandálias de borracha e o par de tênis branco, que eram seus companheiros de longa data.
Respirou fundo antes de começar sua nova vida, apesar das lembranças da antiga ainda estarem tão frescas. Ás 11:30 de uma sexta-feira ensolarada parou em frente à porta de madeira e bradou, para alguém que nem ao menos sabia quem era: - Me deixa entrar.
Ela chegara, finalmente, à Rua R.S, em Maceió e pensou um pouco antes de se deparar com o homem alto e ruivo, com grandes olhos castanhos que a recebera. - Olá, sou a Íris. Devo ficar um tempo aqui. Obrigada por me receber - disse ela.
Pela casa já haviam passado inúmeros viajantes. Cada um trazia suas histórias e deixava uma lembrança. Os últimos haviam sido um casal de ciclistas, que estava percorrendo o Brasil de bike, naturalmente.
Ah, eles deixaram torradas integrais - muito gostosas - de acordo com relatos de quem as comeu. Mas, uma das especialidades da casa era goiabada com Cream cheese. Todo mundo que passava por ali se apaixonava pela iguaria.
- Entre, fique à vontade. Você pode ficar neste quarto e usar a cozinha, mas tem que deixar tudo arrumado - disse Eraldo, o homem ruivo de grandes olhos castanhos.
Íris entrou e se estabeleceu em seu quarto azul, com borboletas coladas nas paredes e uma cama de casal, que ficava no começo do corredor. Estava feliz por ter saído do Sudeste do Brasil - Piracicaba (SP), onde você pira ou se acaba - e estar no Nordeste.
Praia, sol, baladas e garotos a esperavam, de acordo com o que pensavam as amigas que deixou no caminho. Mas, havia um gosto de saudade naquela rua, por onde tantos passavam e poucos ficavam.
A maioria não passava de visitantes que uma hora ou outra, iriam seguir seu rumo, para conhecer outras histórias. Mas, tinha aqueles que não queriam arredar o pé da Rua R.S. Eraldo amava aquele lugar, para onde ele mesmo havia se mudado há pouco mais de um ano. Ele tinha 35 anos e saira do sul do país em busca de aventura, mas na Rua R.S havia encontrado mais que isso. Tinha um lar, só seu, mas não se contentava e queria dividi-lo com outras pessoas. Não gostava de ficar sozinho.
- Quero conhecer a vizinhança e também os lugares legais da cidade - gritou, do quarto, Íris, para Eraldo, que estava no pequeno quintal, onde costumava ficar por muito tempo, cultivando sua horta, feita com garrafas pet, usando o notebook ou fumando.
- Tudo bem, vou te apresentar algumas pessoas depois, porque agora vou preparar o almoço - prometeu ele.
Ela largou suas coisas e foi até a porta. Acenou para um dos vizinhos, que se preparava para entrar em seu carro. Íris pensou: - Terei dias felizes -
O mar...era tão azul que ela nem podia acreditar. Íris foi aprendendo a se virar sozinha, enquanto Eraldo lhe dava alguns conselhos sobre a vida em Maceió. Ela comeu, bebeu, dançou, chorou, beijou, sofreu e pensou: - A vida é um presente de Deus.
Seguiu na Rua R.S. Gostava de como o vento entrava pelos seus pulmões e desarrumava seus cabelos castanhos. O que mais queria era ser beijada pelo sol todas as manhãs e molhar as pontas dos dedos com água salgada, que parecia azul, mas que logicamente era transparente. Ela deixou entrar em seu coração tudo o que era bom e prometeu que não iria mais olhar pra trás. Simplesmente não queria mais ir embora...
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